" (…) vou para a fila de táxis das chegadas internacionais. Estamos num dia bom, há pouca gente, não tenho de esperar muito. É melhor deixar esta brasileira idiota passar à minha frente, quero apanhar um Mercedes Benz, são os meus preferidos. Quanto maior a cilindrada mais frustrado o motorista, é uma lei universal. Entremos pois, já sinto a adrenalina a correr.
- Então chefe, para onde vai ser? - pergunta a besta ao volante.
- Boa noite, já agora! É para a Encarnação.
- Encarnação? Deve estar a mangar comigo! A Encarnação é mesmo aqui ao lado!
- E então amigo, vai haver problema?
(Problemas tenho eu, e neste momento estou a tratá-los. Apanhar táxis no aeroporto é a minha terapia. Entro no primeiro Mercedes que aparece e depois encomendo uma corrida ao calhas, cujo preço total não exceda os quinhentos escudos, aqui não há pão para malucos. Hoje pedi Encarnação):
- Problemas? Claro que vai haver problemas! - exalta-se a besta. - Problemas para mim amigo, problemas para mim! Estou nesta fila vai para quatro horas, nem sequer jantei. E depois aparece-me o senhor e pede-me para ir para o outro lado da rua! Bem podia ter apanhado um avião!
(Fala muito alto, o taxista. Também tem problemas. Fala cada vez mais alto aliás, nem sequer consigo ouvir a bola. Quando saímos do perímetro do aeroporto já ele vai aos berros. Tanto melhor, acabámos de entrar na Zona Sossegada. Ninguém nas ruas, poucos carros. Passemos ao contra-ataque):
- Ó meu amigo, por onde é que pensa que vai? Eu disse Encarnação, está a perceber? Chegado aí à rotunda enfie-me pela direita, que é para a gente não se chatear.
- O senhor pensa que manda aqui ou quê? Vamos lá ver a brincadeira!
Chiam os pneus, travagem brusca, o meu corpo musculado é projectado para a frente, já com o crachá na mão, a reluzir prepotência:
- Parece que és surdo meu cabrão! - (A minha voz é um rugido, sai do fundo da garganta, treinei imenso ao espelho.) - Olha bem para aqui, olha bem para o meu retrato ó caramelo. Queres vir passar a noite à esquadra ou quê?
(A minha cara está encostada à cara dele, o meu bafo na orelha dele, voam perdigotos. É uma cena básica de demarcação de território, aprendi naqueles programas da natureza, com leões e assim. O braço do taxista fora da janela é uma extensão vomitante dele próprio, o ego expande-se para além do táxi, invade a cidade. Os meus dois braços, um a segurar-lhe a cabeça, outro a esfregar-lhe o crachá no nariz, são uma espécie de antivómito. Funciona quase sempre.)
- Tenha lá calma chefe - balbucia. - Tenha lá calma.
- Calmo estou eu paneleirote, calmo de mais! Tu agora metes a mudançazinha, fazes o pisca-pisca como manda a regra, entras devagarinho na rua e vais andando. E já que não querias virar à direita, pois bem, vamos em frente.
- Mas a Encarnação…
- Encarnação uma ova! Tu fica mas é de bico caladinho! Eu dou as ordens e tu obedeces, topas? Vou dar um exemplo: Quando chegares ali ao semáforo viras à esquerda. É básico, não é? Até tu consegues perceber.
- Mas…
- Caluda!
Enfio-lhe o crachá no olho, tipo bandarilha, Olé!, só para acalmar os ânimos. A besta acalma-se, já não era sem tempo. E depois é o costume: "Agora acelera", "agora vira à esquerda", "apanha aquele verde", durante 15 minutos, até chegar à minha casa. Hoje não teve muita piada, às vezes eles dão mais luta."
- excerto de "Os coxos dançam sozinhos", José Prata, Edições Asa, Colecção Pequenos Prazeres, 2002
Alucinante, este livro do José Prata. Às vezes faz-me lembrar Vernon Sullivam, nos tempos áureos de "Irei cuspir-vos nos túmulos".
Ainda vou a meio do processo de devorar o livro, mas não resisti a transcrever este pedaço...
(Obrigado pela dica Alexandre, compreendo agora o teu comentário àquela entrada do Coca-Cola Killer.)
Lista dos links para blogues que mencionam Os coxos dançam sozinhos:
» Os coxos dançam sozinhos de José Prata de ~ Livros com Letras ~
" (…) vou para a fila de táxis das chegadas internacionais. Estamos num dia bom, há pouca gente, não tenho de esperar muito. É melhor deixar esta brasileira idiota passar à minha frente, quero apanhar um Mercede... [Ler...]
Recebido em abril 28, 2005 07:58 PM
lol
nem sabes o quanto me revejo neste post... nunca tive coragem para andar por aí a meter-me em táxis e pedir corridas ao calhas mas acho fascinante o tipo de conversas que se podem ter com os motoristas
Então não é que estás farto de me falar do livro e eu, com aquela cara de parvo que pomos quando mostramos um grande interesse, sem no entanto estarmos a ver bem o que se passa, já tinha lido o livro.
Reconheci o excerto nas primeiras linhas, o que para mim é 1 recorde!
Eu bem digo que podia ter só meia duzia de livros... depois era só acabar um e voltar a outro já lido.
A propósito, o livro é munto getônzo!
BBF
Comentado por BBF a 11 de dezembro de 2003BBF,
Se bem que já tarde, ainda bem que avisas já ter lido o livro...
Sou cá um pai natal...
(Em geito de rodapé, perdi-me a ler o livro até às 3 da manhã ontem à noite. Estou quase a acabá-lo. Claro que hoje, a minha parca pontualidade morreu na praia... ou devo dizer na cama)
Comentado por Tiago a 11 de dezembro de 2003Andar de táxi?
Acho que não há coisa que me deeprima mais... A "impessoalidade" de ir com condutor, a distância entre. O pior, por vezes, é quando essa distância é quebrada (ainda que na forma tentada) por uma das partes. Desde anedotas mal contadas a que fiz psicopáticos sorrisos amarelos, a estórias de desgraças em dias de aniversário, já apanhei de tudo.
Tens razão, se calhar é uma terapia. Vês que não és só tu. Há mesmo muita gente perdida por este mundo...
Ps-e a teoria inversa? Já te imaginaste taxista, na eminência da próxima corrida, sem saber para onde vais ter de levart alguém??? :p
Comentado por C. a 11 de dezembro de 2003:)
Piquei-te a transcrição.
Comentado por Alexandre Monteiro a 12 de dezembro de 2003E fizeste muito bem!
Por sinal, acabei ontem o livro. :-)
Comentado por Tiago a 12 de dezembro de 2003este livro é divertidíssimo, dos melhores que eu li nos últimos tempos
Comentado por innersmile a 18 de dezembro de 2003