«Preparou-lhe o banho com todo o carinho do mundo: a temperatura exacta da água, a espuma precisa, os sais adequados. Como ele gostava. E trocou as toalhas por outras verdes, a condizer com os azulejos da parede. Pôs em cima da banqueta o roupão mais delicado e ajudou-o a meter-se na banheira.
Esfregou-lhe as costas, passou-lhe a esponja pelos genitais, deixou beijos delicadíssimos na humidade dos seus ombros.
Sorriu com doçura depois de tirar o tampão da banheira e viu como a água o arrastava pelo cano abaixo.
A casa de banho é uma caixinha de música contemporânea: torneiras, duche, canalizações, autoclismo, tripas, gargarejos, máquinas de barbear, secador de cabelo, tenores e sopranos. Entramos na casa de banho como se fôssemos, ao mesmo tempo, directores de orquestra, intérpretes e ouvintes. Cantamos, assobiamos, uivamos e gememos e acompanhamo-nos com uma orquestra de água, electrodomésticos e vento.
Nesta sala de concertos, verdadeiramente íntima, a solidão deixa de ser um prazer de besta selvagem para se converter no gozo de um deus.
Choramos na casa de banho, sorrimos em frente ao espelho e descobrimos a melhor companhia em nós próprios. E apaziguamos a alma e as paixões que a desordem quotidiana despertou. E transformamo-nos na nossa própria e melhor ama de leite.
Nesse local, convém que o homem esteja só para gozar da enorme vantagem de não estar com os outros. Nesta caixinha de música, de mecanismo simplecíssimo, dançam tanto o senhor como o vassalo, a princesa altiva e a que pesca em águas turvas. Somos todos ermitões e grandes chefes e grandes poetas.
A casa de banho é uma terra desabitada, como a intimidade da alma. E, acima de tudo: na casa de banho preparamo-nos para o amor.
Se o homem passa, em média, trinta minutos diários na casa de banho, viveu ali cento e oitenta e duas horas ao fim do ano; em quinze anos de vida em comum, o homem passou na caixinha de música duas mil setecentas e trinta e sete horas. Se a mulher for astuta, poderá converter essas duas mil setecentas e trinta e sete horas de prazer em duas mil setecentas e trinta e sete fontes de infelicidade: uma mulher inteligente deve saber tornar baço o espelho e transformar a caixinha de música em câmara de torturas.
São sete da manhã. O homem que sonha atirar a mulher pela janela contempla agora a imagem que lhe é devolvida pelo espelho da caixinha de música: um pijama azul, uns tornozelos brancos, uma ramela amarela, um cabelo revolto, uma língua suja, um relógio à prova de água, uma aliança de casamento, um escarro, um dente obturado, um pneu abdominal e uma barba ligeiramente dourada. O mesmo velho amigo de todas as manhãs.»
-- Fernando Garcia Tolla in "Como tornar um homem absolutamente infeliz", Edições Terramar
Xôdade!
BBF
isso é uma tortura... q revivalismo tão lamechas...
Comentado por jorge campos a 8 de abril de 2005N é nada lamechas... sabe bem de vez em qd...
Bxs
Maf
Este livro sobre casas de banho é de facto uma linda merda
Comentado por Pedro a 7 de março de 2006